Foto: Amanhecer na Lagoa Mawutsini - Aldeia Kamayurá
Acredito que dentro de cada ser humano exista um anseio por aventura, que vem da remota linhagem dos homens que viviam nas selvas, savanas e em todos os ambientes onde a capacidade de caminhar ereto e pensante não era a qualidade que lhes mantinha vivos. Começo assim o segundo "capítulo" deste pequeno relato, pois foi já no segundo dia de convívio com os índios Kamayurás que fomos à pesca, peça fundamental para a sobrevivência nesse ambiente. Saímos eu, meu companheiro de viagem Murilo, Samu e AiraKaru, dois filhos do Cacique Kotok, em direção ao local onde eles costumavam pescar, mais ou menos trinta minutos de barco a motor e umas três horas a remo. Uma vista indescritível, como a maioria por aqui.
A tradição dos índios xinguanos, antes da chegada da "civilização" às suas portas, era pescar com arco e flecha (que ainda acompanha os nativos nas pescarias), porém atualmente, a pesca é feita com redes que chegam a cinquenta metros e com linhadas presas a pedaços de isopor, que funcionam como bóias. Enfim, chegamos ao local onde pegaríamos os lambaris, a serem feitos de iscas para os peixes maiores, apesar do índio comer a grande maioria dos peixes que vivem na lagoa Mawutsini, o alvo era o tucunaré e o pintado, peixes muito saborosos e apreciados. Esticávamos a rede (de aproximadamente dez metros) e batíamos na água na direção contrária à rede para que os peixes fossem na direção da prisão iminente, e foi bem sucedida nossa tentativa, tínhamos, depois de uma meia hora, lambaris suficientes para a próxima etapa, as bóias. Jogávamos as iscas em direção ao centro da lagoa e largávamos as bóias na água, a uma distância aproximada de trinta metros ou pouco mais da margem, e em seguida remávamos um pouco para jogar a próxima isca.
Depois de todo o trabalho inicial, restava a espera atenciosa a ver se uma das bóias se movia, para passar o tempo, continuávamos a capturar lambaris, também para o caso de não pegarmos nada.
Não demorou muito para que os olhos aguçados de AiraKaru vissem a última bóia ser arrastada, era um tucunaré de tamanho razoável, começamos bem, logo em seguida mais duas bóias se mexiam e nós íamos atrás deles com toda a pressa, para ver qual surpresa aquela linha nos traria. Depois de quatro horas de pescaria e quatro tucunarés de bom tamanho, voltamos à aldeia para o almoço, que seria feito com os peixes que levávamos.
Na chegada, fomos recebidos pela criançada que "banhava" na lagoa, curiosos em saber se havia sobrado um lambari ou algum peixe pequeno para que eles pudessem garantir sua "refeição" antes mesmo de respondermos já iam enfiando a mão no balde de peixes e corriam com um, às vezes dois peixinhos, para suas ocas, afim de assá-los à fogueira eterna.
No caminho encontramos o grande pajé e lhes entregamos um dos tucunarés, o que o deixou muito feliz. Nesse trajeto, todos que passavam por nós perguntavam o resultado da pescaria, e lhes respondíamos com orgulho sobre os tucunarés que pegamos.
Assim que entramos na oca, o balde de peixes sumiu na mão de uma das mulheres que prontamente começou a limpar e preparar o peixe para o fogo.
Em alguns minutos estava pronto o peixe, em parte assado, em parte utilizado para fazer o pirão, massa consistente de mandioca com o peixe batido no pilão. Comemos satisfeitos, por ver que provemos alimento à oca, e por saborear aquele peixe que quebrava o nosso jejum.
Uma primeira experiência muito interessante, tanto pela pescaria com os índios quanto pelas perguntas que nos eram direcionadas na pescaria, como se o barco funcionasse como um divã de dúvidas sobre as cidades e a vida nelas. Uma delas, que me impressionou pela ingenuidade e curiosidade do índio, e que me arrancou boas risadas, foi uma feita pelo AiraKaru. Perguntou-me se era verdade que existiam vampiros, ou se era só "na TV", respondi, para sua surpresa que era verdade (o que lhe causou um espanto nítido), mas que eram só morcegos que se alimentavam de sangue, e que homens com dentes afiados e capas longas não eram vistos e nem se tinha notícia deles, o que instantaneamente aliviou os dois índios que estavam prestando atenção na resposta.
A mensagem que ressaltou minha mente foi o quanto eles acreditavam no que um caraíba dizia, sem sequer ter fundamento ou confiança nele. E, tristemente, o quanto os povos perderam através dessa confiança cega na bondade daqueles que interferiam nas suas vidas.
Por Gustavo Carl Korte